
Era uma manhã chuvosa, meus irmãos e eu estávamos no fundo de uma caixa de papelão que foi colocada no meio da rua quando duas moças (que hoje são minhas mamães) nos avistaram. Éramos tão pequeninos que ainda nem emitíamos sons ao miar, nossos dentinhos ainda nem haviam nascido, os únicos sentimentos que tínhamos naquele momento era medo e frio. Por sorte as duas se sensibilizaram e nos levaram para casa, e por dias cuidaram de nós com muito amor e carinho dando-nos um leite especial em uma mamadeira especifica para filhotinhos como nós. E os dias foram seguindo cheios de alegria, recebíamos muita atenção dos 7 moradores da casa. Fomos crescendo, aprendendo a nos alimentar sozinhos, descobrindo um mundo de coisas novas. Mas um dia, um pouco depois de ter completado meu primeiro mês de vida, infelizmente, um incidente aconteceu. Meus irmãos e eu fomos passear na casa de uma de nossas mamães, onde de repente um de seus cachorros escapou, me pegou pela boca e pois-se a correr comigo quintal a fora. Não creio que tenha feito por mal, ele nunca havia visto um gatinho, no mínimo achou que eu fosse um brinquedinho. Foi um sufoco total, minha mamãe desesperada correndo atrás dele para me socorrer até que por fim ela conseguiu me tirar do meio daqueles dentes, eu estava tão assustada que mal podia respirar. No caminho do veterinário fui percebendo que não sentia minhas patinhas traseiras. Minha mamãe que também notou isso ficou ainda mais desesperada. Só depois de muitos exames de raio-x e neurológicos foi constatado que eu havia fraturado três vértebras da coluna o que me impedia de movimentar e sentir minhas patinhas. A veterinária em sua posição de profissional explicou para minhas mamães a gravidade do caso, explicando-as que por eu ser um bebezinho não haviam muitas alternativas pois a dosagem dos medicamentos eram difíceis de serem calculadas e não havia possibilidade alguma de realizar uma cirurgia. A situação era tão crítica que até a hipótese de eutanásia foi levantada. Mesmo assim ela deu uma trégua, passou um remedinho, que cada comprimido deveria ser cortado em oito pedacinhos dos quais eu tomaria apenas um pedacinho, e pediu para que aguardássemos três dias para uma nova avaliação neurológica na esperança de que eu voltasse ao menos a sentir um pouquinho minhas patinhas.
Esses três dias passaram regados de tensão, minhas mamães com muito medo de que eu não melhorasse e sem saber o que fazer e eu também com muito medo de não melhorar e ter minha vida encerrada tão cedo por conta desse incidente. Por fim os três dias se passaram, e o retorno à veterinária foi uma data especial para todas nós, eu respondi à alguns estímulos demonstrando que havia voltado a sentir, mesmo que pouca coisa, minhas patinhas. Então a veterinária pediu para que minhas mães mantivessem a medicação, orientou-as sobre pequenos exercícios de fisioterapia para que meus músculos não atrofiarem, sobre como esvaziar minha bexiguinha, e os demais cuidados.
Graças à dedicação de minhas mãezinhas e muito esforço meu hoje eu já estou engatinhando, as vezes consigo ficar em pé mesmo que poucos segundos, brinco, como, durmo, como qualquer outro bebê. Mas não acaba por aqui, os veterinários, minhas mamães, meus amigos e eu, acreditamos que eu tenha grandes chances de voltar a caminhar com as patinhas traseiras, por isso agora vou iniciar um tratamento com acupuntura que irá me ajudar nos estímulos dos membros e órgãos para que eu possa ter melhor controle sobre eles e quem sabe, voltar a caminhar...